1 de setembro de 2019

TARÂNTULA, DE BOB DYLAN

TARÂNTULA
(Tarantula, 1971)
136 páginas
Tradução do inglês: Rogério W. Galindo
Editora TusQuets (2017)


Como se não bastasse à polêmica envolvendo a escolha de Dylan para o Nobel, o que suscitou novamente perguntas sobre o conceito de literatura, e o seu conseqüente desdém em recebê-lo, o leitor se viu obrigado a se contentar com uma autobiografia incompleta e um livro que ninguém consegue definir com exatidão.

Tarântula foi definido pelo próprio autor como tudo aquilo que não consigo cantar ou grande demais para ser um poema. Desolation Row, música incrível dele, tem 120 versos em 12 estrofes, o que contradiz um tanto a justificativa, mas ok. O consolo é que, assim como frisado na capa, o livro é de ficção, o único do Dylan; o frustrante é que a escrita é uma das mais complicadas de se encarar, o que certamente vai causar raiva em muito leitor – e a ira de quem não concorda com o seu Nobel.

Sendo assim, Tarântula mais parece uma coletânea de microcontos com temas aleatórios; ou fragmentos de uma história com um contexto político que parece uma monarquia em ruínas ou um socialismo opressor; e ainda têm como complemento a cada término de capítulo, cartas endereçadas as mais bizarras pessoas e seus feitos igualmente desconcertantes. Sim, caro leitor, não há uma linearidade, um personagem principal ou um tema a ser apresentado em todo o livro. O fluxo é atemporal, esférico, estático, como se o ambiente fosse desprovido de qualquer aparência natural, e os personagens convivessem em uma bolha.


Mesmo com características que tracem Tarântula como um livro ruim, ele não é. Quem escutou algumas músicas de Dylan, certamente vai perceber que alguns textos foram simples composições descartadas, e que seriam boas canções.

Há ainda textos satíricos bem pontuados, com críticas fortes a tantos assuntos, desde ao socialismo, passando por temas atuais e corriqueiros (racismo, abuso de poder), que o leitor, embora não entenda o propósito do livro de maneira geral o ou encare com bons olhos, vai dar um sorriso de lado e entender alguns dos fragmentos, até porque, mesmo propositadamente confuso, o texto flui e não cansa o leitor de desafiar a escuridão da narrativa.

Embora psicodélico e atemporal, eu li Crônicas e A balada de Bob Dylan, (uma ótima biografia), para tentar entender a mente e contexto pessoal e histórico de Dylan dos anos 1965 e 66, período em que os textos foram escritos. Na autobiografia, o próprio afirma que o que produzira na época 'mais parecia vômito' e que 'estava cansado e cogitando parar de cantar'. Uma das mais célebres canções dele, 'Like a Rolling Stones', surgiu de 20 páginas de versos escritas no período. Seriam páginas do que hoje é Tarântula?

Embora bom, o livro não é para todos, e leitores insatisfeitos com a Academia Sueca vão encontrar mais motivos para reclamar. De qualquer forma, Dylan foi laureado pelas composições, então, de qualquer, este livro não se torna alvo de avaliação.

GoaShape

GoaShape é um estúdio de design com sede na Eslováquia. A fotografia de GoaShape, utilizada na postagem, serve como alusão à psicodelia de Tarântula.

27 de julho de 2019

'20 MELHORES LIVROS DO SÉCULO XXI': 2666, DE ROBERTO BOLAÑO

2666
(2666, 2004)
856 páginas
Tradução: Eduardo Brandão
Editora Companhia das Letras (2010)

Livro participante da lista 1001 livros para ler antes de morrer.
Livro participante da lista O livro da Literatura.

Com uma bibliografia prestigiada e até mesmo intimidadora, o sucesso de Roberto Bolaño, grande parte póstumo, o catapultou para níveis inimagináveis e invejáveis, com títulos e menções de peso, como o de segunda maior voz latino-americana, perdendo apenas para Gabriel Garcia Marquez. Logo, a procura por seus livros aumentaram de maneira surpreendente, assim como a quantidade de fãs.

Parte dos planos do autor, no final das contas, deu certo: o autor queria que seu último livro, 2666, a ser publicado postumamente, desse uma boa renda para seus filhos. Tal atitude é apenas parte das polêmicas e curiosidades que envolvem o livro, uma obra aclamada e odiada.

Tendo por base dois núcleos - o de tentativas de saber quem é o recluso autor alemão Benno Von Archimboldi, e o de assassinatos de mulheres ocorridos em Santa Teresa -, 2666 é considerado pelo próprio autor como seu trabalho mais bestial e colossal, com traços daquilo que ele prometeu nunca mais escrever. O resultado, como é se de esperar, é tão caótica quanto o conturbado processo de escrita.

Correndo contra o tempo, por conta da doença que o assolava, mais parece que Bolaño escrevia e escrevia e não se atentava tanto quanto a revisão, o que sabemos que não confere, já que ele tinha muito zelo em escrever e reescrever sempre que necessário; a prolixidade e informações desnecessárias que permeiam todo o livro, no entanto, enfadam. Em críticas negativas, sempre é pontuada a presença de cenas inteiras que não agregam nada.

O primeiro capítulo, o curioso A parte dos críticos, e o último, o desolador e incrível A parte de Archimboldi, seriam o suficiente para fazer de 2666 um livro igualmente ou mais inesquecível, pois os demais capítulos, que focam nos assassinatos de mulheres em Santa Teresa, são chatos, sonolentos, desafiadores. Resenhas dizem que é uma tarefa árdua atravessar o deserto de Sonora, diante de tantas mortes tão cruas, mas a dificuldade se dá com os detalhes que parecem mais chocar e polemizar, que necessariamente trazer reflexão ou algum outro sentimento de empatia com as vitimas.

A morta apareceu num terreno baldio na colônia Las Flores. Isso aconteceu em 1993. Em janeiro de 1993. A partir dessa morta começaram a se contar os assassinatos de mulheres.

O último capítulo foi, para ser bem sincero, o que salvou o livro, em minha concepção. Foi ali que eu enfim entendi a genialidade do autor, e o que ele queria fazer de 2666, e que não conseguiu por conta de sua morte prematura. E é com certo pesar no coração que eu não posso afirmar categoricamente que 2666 foi um livro incrível, porque ele é, infelizmente, um esboço de algo que seria gigante, incrível, de fato. E entre o esboço e o projeto final, há uma linha tênue.

A biografia de Archimboldi, com informações e cenas tão bem feitas e pensadas, me fez querer reler a parte dos críticos, apenas para me lembrar das dificuldades que os professores tinham em tentar desvendar figura tão enigmática; isso apenas para se ter noção do quanto eu gostei dessa parte especifica.

E é somente nas ultimas partes que entendemos a conexão dos dois eventos, e começamos a entender e admitir que o autor é, sim, genial, mas então o livro acaba, incompleto. Sim, eu entendo o que cada um quis dizer quando mencionou que Bolaño é uma experiência, algo além de literatura, mas enquanto livro pronto e livro do que poderia ser, eu me abstive ao que 2666 se tornou e chegou a minhas mãos.

Mas o mais gracioso de tudo é que 2666 não é apenas 2666. É muito mais. Bolaño é um quebra-cabeça, logo, 2666 é Os detetives selvagens, é Amuleto, mas 2666, sozinho, é um vistoso, porém não tão imponente pedaço do grande e devastador iceberg que seria, caso Bolaño tivesse concluído sua obra.

O FOTÓGRAFO E A FOTOGRAFIA DA VEZ

Ken Treloar
Ken Treloar vive na Cidade do Cabo, África do Sul. Seu estilo narrativo de fotografar foca em cenas de rua, aventuras de viagem e paisagens deslumbrantes, aproveitando o máximo de luz natural. A fotografia de Ken Treloar, utilizada na postagem, serve de alusão ao deserto de Sonora, no México, onde parte dos assassinatos de 2666 acontece.

18 de julho de 2019

'20 MELHORES LIVROS DO SÉCULO XXI': O GRANDE INCÊNDIO, DE SHIRLEY HAZZARD

O GRANDE INCÊNDIO
(The great fire, 2003)
386 páginas
Tradução: Luiz Antônio Oliveira de Araújo
Editora Companhia das Letras (2006)

O grande incêndio, de Shirley Hazzard é um livro pomposo. Finalista dos prêmios Women’s e Man Booker de 2004, a autora abocanhou o National Book e ainda garantiu o livro na lista dos 20 melhores livros do século 21, encomendado pela BBC. Lá fora, ela é consagrada e amada; o que não aconteceu no Brasil, onde a Companhia das Letras, editora que a publica, sequer mantém uma página do livro em seu site. Embora pomposo, O grande incêndio é, se não um tanto pretensioso, ao menos incompreensível no que diz respeito a sua aclamação.

Após os trágicos eventos da Segunda Guerra Mundial, Aldred Leith, oficial britânico, é responsável por pesquisar relatos da consequência pós-guerra na Ásia, concentrando-se no Japão, com a intenção de transformar todas as buscas e informações em um livro. Angustiado com os traumas da guerra e com os próprios demônios pessoais, ele passa a conviver com os irmãos Benedict; o jovem Ben, com uma doença degenerativa incurável, e a doce Helen, por quem acaba tendo um peculiar interesse.

Começando de maneira agradável, exatamente como a sinopse nos apetece, O grande incêndio tem a intenção de apresentar vários questionamentos que certamente incomodaram a mente das pessoas durante a guerra: ainda existe amor? Um dia a paz retornará ao mundo que foi destruído por bombas atômicas? Mesmo em um mundo em ruínas, é possível sonhar? O grande erro da autora, no entanto, é inserir, de maneira forçada e um tanto insossa, uma paixão aparentemente impossível diante do fascinante cenário criado.

Impossível no livro, é bom explicar, não porque o amor não existe mais, e sim por outras questões que beiram o bobo. O drama se dá por Leith ser quase 17 anos mais velho que a moça, além de viajar constantemente pelo mundo. Justificativas fracas, mas que no livro tomam grandes proporções; o suficiente para que o casal se apaixone perdidamente sem se apegar de fato. De amor que vence barreiras, o romance passou a ser um fiasco, diante das demonstrações engessadas de amor.

Nem as descrições sobre a China e o Japão destruídos pela guerra, e ainda enfrentando uma guerra civil, são capazes de suscitar por muito tempo os ânimos do leitor. Leith, imerso em um prematuro amor, desvia o foco principal do livro para pensamentos adolescentes em Helen.

Inexplicavelmente premiado e com um potencial explorado de maneira insossa, O grande incêndio logo se torna tão esquecível quanto o tratamento que sua casa editorial o proporcionou. Com um plot inicialmente original e sensacional, a história se perdeu em mais do mesmo, causando insatisfação e espanto.

O FOTÓGRAFO E A FOTOGRAFIA DA VEZ

Rob Potter
Rob Potter vive em Bristol, Reino Unido. É fotógrafo e cinegrafista. A fotografia de Rob Potter, utilizada na postagem, serve como uma alusão ao bombardeamento às cidades de Hiroshima e Nagasaki, pontapé inicial do livro.

6 de julho de 2019

'20 MELHORES LIVROS DO SÉCULO XXI': APRESENTAÇÃO

A vida é um desafio, em todos os aspectos e áreas. Logo, no mundo da literatura não poderia ser diferente. O blog Desafios Literários nasceu da insatisfação em não existirem tantos blogs que falem sobre alguns livros, mais rebuscados ou eruditos que são incríveis, porém pouco - ou nada comentados.

O Prêmio Nobel de Literatura nasceu por conta disso: histórias aplaudidas pela crítica, mas nem sempre pelos leitores, que têm, dentre tantas outras coisas, medo de encará-los. Um projeto a perder de vista, com vários anos de duração.

Para não focar somente em um prêmio, afinal, o mundo de publicações de livros não para e algumas pessoas não se identificam/interessam no meu projeto anterior, eu optei por me aventurar em outro desafio, onde não há menção de autores Nobel, mas igualmente respeitados pela crítica – e negligenciados por leitores.

Trata-se, então, de Os Melhores Livros do Século 21, uma lista um tanto subjetiva, é preciso ser sincero, que não diz a verdade absoluta, mas instiga o leitor a querer conferir se tais autores merecem, de fato, tais posições no ranking, ou sequer estarem na lista.

Divulgada pela Folha de São Paulo, onde informa que o site de Cultura da BBC solicitou a críticos literários do New York Times, Time Magazine, Newsday, The Millions e outras publicações especializadas que escolhessem os melhores romances publicados em inglês desde 01 de janeiro de 2000 até meados de 2014. Os críticos indicaram 156 romances e o site divulgou a lista dos 20 melhores livros.

POR QUE OS MELHORES LIVROS DO SÉCULO XXI?

O século 21 está apenas começando, mas uma lista prematura com os melhores livros é algo ambicioso, que nos instiga e soa até prepotente, há quem ache. Um dos muitos erros da lista é a de restringir quase que de maneira exclusiva a livros escritos originalmente em inglês, sem focar em tantas outras línguas de literaturas incríveis, ou ainda de ignorar a literatura oriental. De ponto positivo, é o fato de que somos contemporâneos e, apesar de adorar um clássico, são muitos os livros dessa lista que certamente serão os clássicos dos próximos 50, 70 anos, e, quem sabe, o próximo laureado com um Nobel.

Outro fator decisivo em trabalhar tal lista é o fato de que todos os livros estão publicados no Brasil, então não haverá uma dificuldade para adquiri-los e lê-los, pois são de autores, em sua maioria, conhecidos, ou publicados em editoras que todos conhecem.

COMO SERÁ O DESAFIO?

O desafio consiste, basicamente, em ler os livros de todos os autores que foram mencionados na lista, em ordem decrescente, da vigésima posição até a primeira, resenhando-os e, ao final do desafio, conversar francamente para ver se tais posições estão, na minha opinião de leitor amador, corretas, ou se, diante das leituras, as posições deveriam ser refeitas.

Além de provar que somos capazes de ler esses livros - taxados de difíceis - como qualquer outro, o objetivo do desafio é, também, impulsionar a publicação desses livros, pois a procura, infelizmente, não é tão grande e, mesmo com posse dos direitos, algumas editoras postergam ao máximo as reedições, como é o caso de três ou quatro livros.

Por fim, o desafio Século XXI não tem um prazo definido para terminar, em que eu vou ler sem pressa e postar a resenha quando convir, então leia em qualquer momento da sua vida, depois venha aqui e comente sua experiência. Use nas redes sociais a hashtag #SéculoXXI  para que eu possa ver qual livro leu, como foi a leitura que você teve, e compartilhar informações, experiências e, quem sabe, até mesmo frustrações. 

OS LIVROS DA LISTA

1. A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao (Record), de Junot Díaz.
2. O Mundo Conhecido (José Olympio), de Edward P. Jones.
3. Wolf Hall (Record), de Hilary Mantel. 
4. Gilead (Nova Fronteira), de Marillyne Robinson.
5. As Correções (Companhia das Letras), de Jonathan Franzen.
6. As Incríveis Aventuras de Kavalier & Clay (Companhia das Letras), de Michael Chabon.
7. A Visita Cruel do Tempo (Intrínseca), de Jennifer Egan.
8. A longa caminhada de Billy Lynn (Intrínseca), de Ben Fountain.
9. Reparação (Companhia das Letras), de Ian McEwan.
10. Meio Sol Amarelo (Companhia das Letras), de Chimamanda Ngozi Adichie. 

A Fantástica Vida Breve de Oscar WaoO Mundo ConhecidoWolf Hall GileadAmericanah AusterlitzA Amiga GenialA Linha da Beleza2666O Grande IncêndioNWA EstradaAs CorreçõesAs incríveis aventuras de Kavalier e ClayA Visita Cruel do TempoA longa caminhada de Billy LynnReparaçãoMeio Sol AmareloDentes BrancosMiddlesex
11. Dentes Brancos (Companhia das Letras), de Zadie Smith.
12. Middlesex (Companhia das Letras), de Jeffrey Eugenides.
13. Americanah (Companhia das Letras), de Chimamanda Ngozi Adichie.
14. Austerlitz (Companhia das Letras), de W.G. Sebald.
15. A Amiga Genial (Biblioteca Azul), de Elena Ferrante.
16. A Linha da Beleza (Nova Fronteira), de Alan Hollinghurst.
17. A Estrada (Alfaguara), de Cormac McCarthy.
18. NW (Companhia das Letras), de Zadie Smith.
19. 2666 (Companhia das Letras), de Roberto Bolaño.
20. O Grande Incêndio (Companhia das Letras), de Shirley Hazzard.

E então é isso, conto com você para que juntos possamos ler e compartilhar essa experiência que será, sem dúvidas, incrível. Conte aqui se já leu algum livro do prêmio, como foi a experiência e se tem interesse em algum. Conforme o projeto for se desenvolvendo, nós vamos esmiuçando mais, observando algumas curiosidades e coisas do tipo.

Espero que gostem! Na próxima semana eu volto para apresentar o primeiro livro do projeto!

1 de julho de 2019

A BALADA DE BOB DYLAN, DE DANIEL MARK EPSTEIN

A BALADA DE BOB DYLAN
(The ballad of Bob Dylan , 2011)
524 páginas
Tradução do inglês: Thiago Lins
Editora Zahar (2012)

Com o anúncio do nome de Bob Dylan como Nobel de Literatura, a primeira pergunta que me fiz, e muitos leitores certamente fizeram, foi: ele tem livros? O que ler dele? Após uma pesquisa mais sucinta, o autor tinha um livro de poemas há muito esgotado no Brasil (que voltará em 2017) e uma autobiografia (que volta as livrarias ainda em 2016). Restou ouvir as músicas e procurar por alguma biografia, o que em si é frustrante. O leitor quer os escritos do laureado, não de pessoas falando sobre... Talvez como uma leitura complementar, mas ainda assim.

Dentre as poucas biografias do músico, a que mais é coerente, em meu ver com a escolha da Academia é A balada de Bob Dylan - um retrato musical, já que foi laureado por criar novas expressões poéticas dentro da grande tradição da música americana, então o correto seria uma leitura aprofundada sobre as músicas, não tanto sobre a vida de Dylan. Mas o leitor vai se surpreender – e muito! – com esta biografia.

Em um primeiro momento, vem a incerteza: parece que Daniel Mark Epsten é um fã de carteirinha do cantor e que vamos encontrar apenas um livro enchendo-o de elogios sobre sua qualidade musical. É um grande alívio perceber que, embora Dylan tenha participado ativamente na vida dele, Daniel escreve de maneira mais imparcial possível, confessando que deixara de acompanhá-lo nos momentos mais confusos de sua carreira.

A construção de A balada de Bob Dylan é, basicamente, contar a experiência do autor em quatro shows de Dylan em diferentes anos de sua carreira: 1963, 1974, 1997 e 2009. A partir de tais shows, vemos o autor comparando o cantor desde a última vez em que o viu, constatando o que mudou, tanto de bom quanto de ruim, em absolutamente todos os aspectos da vida do cantor.

E o fantástico é exatamente isso: o contexto social, histórico e religioso no mundo e dentro da cabeça do cantor, que refletiu diretamente em todas as composições. Tudo tem um por que. Toda inspiração vem de algum lugar. Blowin' in the Wind e Like a Rolling Stone, por exemplo, as músicas mais conhecidas, não vieram do nada, apenas com o fato de Dylan ter sentado e passado tudo para o papel. Vemos, através da biografia, que houve conflitos, dentro e fora de casa, que foram essenciais para as composições. E que letras!


Embora não de todo convencido com a escolha da Academia, eu consigo entender um pouco da expressão poética, pontuada com precisão. São letras fortes e com muito conteúdo, falando o que o coração sente, sem apelação, mas com sinceridade e singelo. Outras, mais intensas ainda, como Desolation Row e North Country Blues são ficção pura, histórias que arrebatam a todos.

A leitura de A balada de Bob Dylan foi extremamente proveitosa, por, primeiramente, ter sido essencial para que eu fizesse uma leitura transmidiática, onde eu lia o livro, depois escutava a música citada, para então ler novamente a opinião do autor, juntamente com todo o contexto da época, e, por fim, ler a tradução da música. Difícil, porém maravilhoso, afinal, leitura é isso; a porta de um longo corredor, em que o leitor se aprofunda no assunto.

Embora não tenha me feito aceitar a escolha da Academia, A balada de Bob Dylan me mostrou um ótimo cantor, com uma carreira sólida, apesar dos altos e baixos – que todos têm – e que se mostrou ser, embora não queira, um porta-voz para muitas pessoas e situações ao longo de cinco décadas.

Foi dito no livro que: ‘existem também pessoas cantando “Blowin’ in the Wind” pelo mundo afora, cujas vidas são melhores por causa desta canção, mesmo que não saibam quem a escreveu ou as respostas para as perguntas que ela propõe’. Em suma, é exatamente isso. Com ou sem Nobel, Bob Dylan está aí, anunciando sua mensagem, cantando sua canção, confortando o coração de alguém. Esta é a balada de Bob Dylan.

O FOTÓGRAFO E A FOTOGRAFIA DA VEZ
Yvette de Wit

Yvette de Wit vive em Cingapura, estava na Alemanha, durante o Melt Festival, quando tirou essa foto.  A fotografia de Yvette de Wit , utilizada na postagem, serve como alusão à vida do músico Bob Dylan e dos quatro shows a que seu biógrafo se refere em A balada de Bob Dylan.