19 de maio de 2020

A GUERRA NÃO TEM ROSTO DE MULHER, DE SVETLANA ALEKSIÉVITCH

A Guerra Não Tem Rosto De Mulher
A GUERRA NÃO TEM ROSTO DE MULHER
(У войны не женское лицо, 1985)
392 páginas
Tradução do russo: Cecília Rosas
Editora Companhia das Letras (2016)

Mais uma vez somos confrontados com uma realidade cruel, porém ignorada pelo mundo todo: a participação de mulheres na Segunda Guerra Mundial. Assim como ter 'ouvido' as vozes das pessoas de Tchernóbil foi sufocante, o leitor vai querer alguns momentos para digerir as vozes das mulheres, sejam elas soldados, enfermeiras, francoatiradoras, médicas militares... Enfim, o relato é desconcertante.

A autora, Svetlana, começa o livro já falando que guerra tem cheiro, gosto masculino, o que pode soar como machismo, mas as próprias mulheres, mesmo sem saber, repetem a frase, confirmam aquilo que foi dito: mulheres não deveriam ter participado desse cenário horripilante.

Mas por quê? As mulheres eram obrigadas a raspar a cabeça quando eram aprovadas no alistamento, e ao chegarem lá deveriam se adaptar a lugares insalubres - até para homens. Não havia roupa específica para eles, nem itens de higiene pessoal. Elas usavam farda números muito maiores que o ideal, botas no mesmo estado, e, tinham que se virar para lidarem com menstruação e "coisas de mulher".

Aliás, relatos esse que são previsíveis e esperados, mas ainda assim chocantes. Mulheres que deixaram de menstruar, entrando numa menopausa precoce, ou até mesmo menstruando fora do tempo, por conta da exposição  intensa ao medo e ao estresse. E tudo ao redor de homens, que fingiam que não viam "o sangue escorrendo da farda", como confessou uma entrevistada. 

E por que diabos essas mulheres se sujeitaram a isso? Necessidade. Amor a pátria, principalmente. O homem soviético amava a pátria acima de tudo. E as mulheres não conseguiam ver o desastre invadindo suas cidades e simplesmente ignorarem tudo. Vemos então mães deixando suas casas, suas mães idosas sozinhas - afinal, os homens da casa já estavam guerreando -, e até mesmo seus filhos pequenos para defender país. Para garantir a paz para o futuro deles. 

Em um primeiro momento, aparenta que falar sobre Chernobyl é mais interessante, mas este livro me deixou inúmeras vezes angustiado, tanto que passei duas semanas com ele, lutando para digerir as informações, procurando meios de evitá-lo, não por ser ruim, mas porque eu não queria imaginar as mulheres nessa situação... Minha mãe, por exemplo, sofrendo o que as soviéticas sofreram. 

Embora duro, brusco, não deixamos de contemplar o lado feminino de cada mulher, a dificuldade que cada uma encontrou para manter a essência. São mulheres que, depois da guerra, tiveram de reaprender a usar salto, vestido... Mulheres que, mesmo em guerra, queriam estar bonitas. Não para os soldados companheiros, mas para si mesmas, ou para a morte, como elas admitiram.

Enfim, mulheres na guerra, quem diria? Mulheres amputadas, com o sistema nervoso destruído, cabelo branco aos 20 e tantos anos, sem um ciclo menstrual. Confundidas com homens, mas ainda assim mulheres. Guerreiras.

3 de maio de 2020

'LENDO NOBEL': PEÇAS FALADAS, DE PETER HANDKE

PEÇAS FALADAS
(Publikumsbeschimpfung und andere Sprechstücke, 1966)
240 páginas
Tradução do alemão: Samir Signeu
Editora Perspectiva (2015)

Depois de um primeiro contato um tanto frustrante com Don Juan (narrado por ele mesmo), romance contemporâneo de Peter Handke, eu optei por conhecê-lo através de suas peças, de preferência algo que remetesse diretamente a seus primeiros textos. A própria Academia Sueca enfatiza sua maestria no gênero, especificamente com o contracultural, revolucionário e além-tempo Insulto ao público

Tal peça, aliás, está no aparentemente redundante, porém inteligente, título Peças Faladas, publicado bem antes do Nobel, ainda em 2015, pela editora Perspectiva, em que contém as quatro primeiras peças escritas pelo autor: Predição, Insulto ao público, Autoacusação e Gritos de socorro.

Um adendo, o que não costumo fazer nas resenhas, para a edição da editora: além de se tratar de edição bilíngue, temos um prefácio muito eficiente sobre o cenário teatral e artístico da década de 50-60 na Alemanha, período precursor e que impulsou Handke a andar na contramão, além de explicações breves, porém interessantes, de Samir Signeu, sobre a peça, com pontos emblemáticos, esmiuçando a própria intenção do autor com a mesma, como iniciante e praticante rebelde da arte dramática alemã da época.

As quatro peças, aliás, quando entendidas suas intenções e existências ante a personalidade, intenções e aspirações de Handke, explicam muita coisa, ou tudo, sobre a Alemanha de 1960, com o objetivo do autor de questionar e discutir, não somente o comportamento da época (pós-Guerra, é bom frisar), como a própria maneira de atuar, de se expressar, de questionar e discutir, temas revolucionários e polêmicos para a época.

Tido como inovador, Handke rompe as barreiras do teatro ao tratar o teatro como metalinguagem, o chamado metateatro. É o teatro dentro do teatro, mas sem atuação, tanto que o autor não se refere as pessoas como atores, e sim como oradores, sem compor imagens, e sim apenas palavras soltas, proferidas no ambiente. As peças simplesmente, ou eficientemente faladas.

Questionadas à época se seriam os iniciantes de uma nova escola dramática, e se tais manifestações se tratavam de antiteatro, metateatro, teatro pós-dramático ou teatro puro, as peças de Handke mostram o quanto o autor foi, de fato, revolucionário em seu tempo e eficiente em suas propostas, pois o leitor certamente vai fechar o livro após a leitura de cada peça e mastigar o que foi dito: a leitura pode não ter sido uma experiência pessoal boa, mas o texto em si, com toda a sua necessidade e mensagem transmitida, é bom, e certamente fará o leitor reconhecer, mesmo a contragosto, a admitir que é acertado, eficiente, e artístico. É impossível ler este livro e ficar indiferente.

Um soco no estômago por conta de seu conteúdo, intenções e resultados, as ditas Peças Faladas foram revolucionárias à época, e são atemporais, pois funcionam muito bem nos dias de hoje em se tratando de questionar a encenação, o teatral, o dramático e até os comportamentos políticos e sociais, sem, no entanto, agradar a todos, afinal, é um insulto ao público.

11 de abril de 2020

'LENDO NOBEL': O FIM DO HOMEM SOVIÉTICO, DE SVETLANA ALEKSIÉVITCH

O Fim do Homem SoviéticoO FIM DO HOMEM SOVIÉTICO
(Время секонд хэнд, 2013)
596 páginas
Tradução do russo: Cecília Rosas
Editora Companhia das Letras (2016)

Para saber mais sobre o Projeto Lendo Nobel clique aqui.

Dentre todos os livros da fantástica Svetlana Aleksiévitch, o mais emblemático talvez seja O fim do homem soviético, já que aborda a política de um país distante, que foi estudado à exaustão, por conta de tantos eventos que marcaram de várias formas a história da humanidade. Ainda assim, parece mais um livro que causa receio, por aparentar ser uma leitura de russos para russos, não para estrangeiros. Estes, caso queiram se aventurar, talvez aparente que precisam de muito texto de apoio. Ledo engano.

A autora é bem sucedida em destrinchar a política russa de maneira simples e objetiva, passando a mensagem até para o mais leigo do assunto, que não sabe muito sobre Stálin, ou que acha que o cenário político russo atual se restringe à Pútin. Quem já embarcou em outras leituras sobre o assunto não vai se decepcionar; deve se preparar, ao invés disso, para ser confrontado com a realidade crua do reflexo do colapso de um império aparentemente indestrutível: o comunismo. A transição de capitalismo para socialismo; queda e ascensão. Aceitação e desprezo. Manifestações.

É importante ressaltar que o livro não tem a missão de pregar uma nostalgia do comunismo, ou ressaltar as tantas truculências da ideologia política, conhecidas e comentadas por qualquer um. Aqui os habitantes têm voz, e expressam todas as suas memórias sobre um fato tão marcante na vida de cada um deles. Teremos, então, relatos sinceros, chocantes e emocionantes de pessoas que, sim, ficaram satisfeitas com o fim do socialismo; outras que desprezam o capitalismo; e ainda o terceiro grupo, o de indiferentes, ou que não eram a favor do socialismo, tampouco do nascimento do capitalismo, mas sim de uma terceira opção, inimaginável. Talvez tão utópica quanto às alternativas anteriores.

Será que é possível fazer o bem com metralhadoras e com facas?
Um misto de velhinhos retrucando que venderam o comunismo por um hambúrguer do McDonald's ou um maço de Marlboro – críticas aos diferentes tipos de produtos estrangeiros disponíveis nas prateleiras – com mulheres inteiramente satisfeitas em trocarem todos os seus móveis nacionais (e pouco diversificados) por coisas internacionais, da Itália, França e etc.

O que mais me desconcertou durante a leitura foi chegar à conclusão de que, não importa se a favor ou não do socialismo, que tanto comentam ser opressor, e tal... Fatos inquestionáveis, sim... Mas o que faz refletir é que não importa a nossa opinião, e sim a dos russos, daqueles que tiveram de passar por toda a situação, e a verdade é eles não queriam a introdução do capitalismo; não da maneira abrupta, pelo menos, que foi, sem meio termo forçada, quase impositiva, tal como o próprio socialismo.

Entrevistados afirmam a autora, independente do favoritismo, que foi difícil, arrasador... A implantação do capitalismo foi tratada com orgulho, afinal, foi considerada completa em três míseros anos, quando outros países demoraram décadas, mas o que cada cidadão russo se pergunta é: é possível ter orgulho de algo que, mesmo benéfico depois, trouxe, de início, o caos? Pessoas morreram, passaram fome, ficaram a mercê de Deus sabe quem. Pessoas se intitulando vermelhas (a cor do comunismo), e desprezando as brancas, e vice-versa; depois socialistas inveterados odiando os novos capitalistas... Ah, os russos que proclamaram independência passaram a ser odiados pelos russos originais, e vice versa...

Agora no parlamento só existem bandidos. Milionários em dólar. Eles tinham que ir para cadeia, não para o parlamento. Fomos tapeados com a perestroika! Eu nasci na URSS e gostava dela.

Sabe, um cidadão russo chegou a afirmar que preferiria passar pela Segunda Guerra Mundial novamente, que ter que ver russos menosprezando o próximo; irmãos se matando, tratando-os como se fossem desconhecidos, um novo e desprezível povo... Como se não fossem humanos! Incomoda ver que um pão passou a custar um salário de três meses pára uma pessoa, e o vizinho passou a comprar caviar importado e cuspir na cara desse mais pobre, quando antes, na época em que todos eram socialistas, ambos se abraçavam, em uma bela demonstração de afeto.

Mais desconfortável ainda é sentir a hipocrisia vinda de mim mesmo, que passei a me importar com as dificuldades impostas nas vidas de tantos russos, mas não me atentava, até então, com a de tantos brasileiros, afinal, vivemos em um capitalismo, com seus meus prós e contra, que causaram tantos males para a sociedade, mesmo com seus benefícios.

Com sutileza e necessidade muito bem pontuadas, Svetlana parece que sacode o leitor a cada página, como que despertando atenção para coisas do cotidiano negligenciadas, mesmo que não propositadamente. Pessoas passando fome, morrendo, matando... Tudo em nome de uma ideologia política que causa mal, não importa qual delas: se o socialismo ou capitalismo. Em ambas há o derramamento de sangue. Há a contradição. Há nações feridas.

25 de março de 2020

'LENDO NOBEL': VOZES DE TCHERNÓBIL, DE SVETLANA ALEKSIÉVITCH

Vozes de Tchernóbil
VOZES DE TCHERNÓBIL
(Чернобыльская молитва, 1997)
384 páginas
Tradução do russo: Sonia Branco
Editora Companhia das Letras (2016)

Inúmeras foram às tragédias que assolaram o homem, desde que passou a existir. Acompanhamos algumas delas em detalhes pela televisão, e  passamos a nos inteirar das mais antigas através das aulas de história. Mas, dentre todas as tragédias conhecidas, a que menos se ouve falar talvez seja a do Acidente Nuclear de Chernobyl.

Eu mesmo não sabia falar sobre, caso me perguntasse, e passei a me inteirar quando começaram as reportagens e homenagens dos 30 anos (!) do acidente. De esquecido, ele passaria a ser comentado entre todos, e ter um livro de um Nobel de Literatura, que fala sobre o assunto, foi uma porta de entrada mais que incrível!

É importante deixar bem claro que Vozes de Tchernóbil não vai detalhar as últimas horas do evento, assim como não vai dar uma cronologia dos fatos imediatos à explosão, apesar de ser esperado algo do tipo. A ausência desses dados tem um por que, que é o de não perder o foco do livro. 

Neste relato, quem vai nos contar a história não é a autora. O que temos aqui é como o próprio título diz: pessoas que participaram, direta ou indiretamente, do desastre terão voz, poderão enfim falar sobre sua participação naquele evento tenebroso.

"Você não deve se esquecer de que isso que está na sua frente não é mais o seu marido, a pessoa que você ama, mas um elemento radioativo com alto poder de contaminação. Não seja suicida".

Por quê? No livro saberemos que o governo tentava silenciar as pessoas que tentavam, mesmo que sem más intenções, informar sobre a gravidade da situação. A URSS tratava o acidente como um singelo incêndio controlado. 3 dias depois que as atitudes drásticas - e necessárias desde o primeiro momento - foram tomadas. Tarde demais para os milhares de pessoas expostas à radiação.

Mas a quem pertencem tais vozes? Temos de tudo, desde os chamados liquidadores, voluntários para 'liquidar' a radiação, até bombeiros, presidente de entidades filantrópicas, passando por médicos e enfermeiros e chegando a mulheres de bombeiros e até crianças. Todos são envolvidos, mesmo contra a vontade. Todos são de Tchernóbil. Todos são 'as bombas radiativas ambulantes', aqueles que receberam radiação e que nos próximos anos terão filhos com mutações.

É, o preconceito mais uma vez é predominante entre os humanos. A própria URSS fez uma chamada zona de exclusão, onde as pessoas que moravam em um raio de 30 quilômetros da usina, deveriam ser evacuadas das cidades e viver em um lugar específico. Uma espécie desesperada de eugenia, visando à saúde pública e higiene de todos. Não.

A URSS não se importava tanto com isso. Vemos relatos de pessoas tentando reverter à situação, mas que foram ignoradas por estarem 'roubando a paz' dos soviéticos, assustando as pessoas com besteiras. Tanto que, comidas contaminadas foram consumidas sem o menor problema, como se fossem saudáveis. Por que o silêncio? Por que não tratar os humanos como humanos? Por que esconder que a exposição à radiação era inúmeras vezes mais que o divulgado?

Vozes de Tchernóbil faz pensar. Muito. Faz com que o leitor tente se colocar no lugar da mulher do bombeiro que beijava o marido escondida, porque os médicos temiam que ela também fosse contaminada; da criança excluída dos colegas de escola por ser tachada de vaga-lume, bomba de Tchernóbil; do homem que trabalhou debaixo do reator que explodiu, recebendo radiação de primeiro grau, mas que trabalhava pensando ganhar um dinheiro exorbitante que faria com que ele mudasse de vida para sempre. E mudou, para pior.

"Eu quero testemunhar, a minha filha morreu por causa de Tchernóbil. E ainda querem nos calar. Dizem que a ciência ainda não comprovou, não há banco de dados. Mas a minha vida humana... Ela é curta. Minha filha morreu aos sete anos".

Enfim, é preciso ler o livro para absorver todas as informações. É preciso ler para 'ouvir' as vozes de Tchernóbil. Não são vozes agradáveis. As vozes são "doloridas, conformadas, pungentes, revoltadas", como bem pontuou a editora na quarta-capa.

Vozes de Tchernóbil é um livro difícil sobre política e patriotismo pontuado e o que beira o fanatismo. O homem soviético realmente amava a sua pátria. Também é um livro sobre causas e consequências, mas sem pontuar um culpado. Ninguém sabe quem é o responsável pelo desastre. Não temos culpados, apenas vítimas.

Por fim, é uma porta maravilhosa para quem quer se aventurar na não-ficção. A realidade estampada pode causar muito desconforto, mas é necessário, afinal, estamos falando de vidas, de uma tragédia que poderia ter acontecido conosco. 

22 de fevereiro de 2020

'LENDO NOBEL': AS ÚLTIMAS TESTEMUNHAS, DE SVETLANA ALEKSIÉVITCH

AS ÚLTIMAS TESTEMUNHAS
(Последние свидетели, 1985)
272 páginas
Tradução do russo: Cecília Rosas
Editora Companhia das Letras (2018)

Mais que simplesmente abordar a vida dos soviéticos e pós-soviéticos, Svetlana Aleksiévitch tira, literalmente, os esquecidos da escuridão, dando a eles a oportunidade de falar, colocando-se na escuridão, originalmente no lugar deles. Com delicadeza e gentileza, os relatos vêm, sinceros, as vezes sufocados, muitos ainda resistente, depois de anos de silêncio, mas a maioria fluidos, gratos por terem, enfim, voz.

O mais incrível na proposta de Svetlana não é nem permitir que quem, de fato, viveu aqueles momentos conte sobre aquele período, mas sim no prisma inimaginável que ela conta tal história. A explorada até a exaustão Segunda Guerra Mundial, em As últimas testemunhas tem o ineditismo de apresentar as crianças neste período conturbado da história. Os dados, como é de se imaginar, assustam: três milhões de crianças mortas e, só na Bielorrússia, vinte e sete mil viviam em orfanatos.

Meu irmão estava com tanta fome, que pediu para mamãe: vamos cozinhar meu patinho. O patinho era o brinquedo de borracha. O favorito dele".

A dor e angústia das crianças não se limitam somente a ver seus pais indo embora, encaminhando-se para a guerra, embora por si só o leitor já se sinta ferido; os relatos são de crianças vendo suas casas queimadas, os pais mortos na frente delas, enquanto se escondem com vizinhos, em valas, tendo de enfrentar alemães, frio, fome, orfandade, a incerteza do futuro.

Os relatos que mais me chocaram foram o de crianças que assistiram a morte dos pais, ou ainda a revelação de que crianças eram levadas de orfanatos a fim de transplantarem seu sangue para soldados alemães feridos, com a suposição de que sangue novo, o infantil, teria alto poder de cura e cicatrização. Apenas mais algumas das loucuras e bestialidades que o homem alimentou durante a Guerra. Temos ainda crianças tomando sopa de água quente, ou ainda propondo que cozinhem seus brinquedos, com a intenção de silenciar o estômago. 

Embora repetitivo em alguns momentos, afinal, a inocência infantil seguida da violência afligida, é comum a todos os relatos, As últimas testemunhas não é apelativo; comove e leva o leitor a reflexão, sobre a própria infância e sobre a quantidade, e de que maneira brutal os direitos humanos foram violados. Não importa se de socialistas, antes que alguém se atreva a levantar alguma bandeira. Todos, independentemente de ideologia política, merecem viver, ter o direito a paz, a educação, e hoje esses adultos, crianças traumatizadas, têm de viver com seus demônios pessoais.